Encontrar uma pena
Encontrar uma pena no chão é comum na época da muda das aves. Numa carta de 1560, o padre José de Anchieta contou que indígenas deixavam penas na trilha como oferenda, e a cena faz pensar no que deixamos pelo caminho.
O que pode significar
Uma pena no chão é algo que outro ser deixou para trás sem pensar, no meio do voo ou da muda. Há quem passe por cima e há quem se abaixe para olhar. Em 1560, numa carta escrita na capitania de São Vicente, o padre José de Anchieta contou que os indígenas deixavam penas de aves, leques e flechas em certos pontos da trilha que levava ao sertão, como oferenda para que o Curupira não lhes fizesse mal. Uma pena encontrada inverte a cena: você também deixa coisas pelo caminho para quem vem depois. Um conselho, uma porta aberta, um lugar arrumado, ou, ao contrário, um problema que alguém vai ter de recolher.
Depende de como você viu
Uma pena branca e macia
Penas brancas pequenas geralmente são de garças, pombas ou galinhas, e as bem macias, de penugem, vêm do peito das aves. Se você guarda uma, repare no que estava fazendo quando a achou: muitas vezes é isso que a pena passa a evocar depois.
Uma pena preta e brilhante
Ao sol, penas pretas de urubus ou anus podem mostrar reflexos azulados e esverdeados, que vêm da estrutura microscópica da pena. Olhar de perto o que parecia só escuro revela cores que de longe não aparecem.
Uma pena colorida, de arara ou papagaio
Penas azuis, verdes ou vermelhas de araras e papagaios caem perto de onde eles comem ou dormem. O azul, aliás, não é pigmento: vem da forma como a pena reflete a luz, e, contra a luz, ela parece parda.
Muitas penas juntas num só lugar
Um monte de penas espalhadas é, na maioria das vezes, o rastro de um gavião ou de um gato que pegou uma ave. A cena entristece, mas é o lado menos delicado dos achados de quintal, e também merece um olhar sem pressa.
Por que acontece na natureza
As aves trocam as penas aos poucos, num processo chamado muda, que muitas espécies fazem uma vez por ano, em geral depois da reprodução. Por isso é comum achar penas soltas em praças, quintais e praias. As cores podem vir de pigmentos ou da estrutura microscópica da pena, que reflete a luz e produz azuis e brilhos metálicos.
O que dizem as crenças populares
Capitania de São Vicente (1560)
Numa carta de 1560, escrita na capitania de São Vicente e transcrita por Pereira da Costa, o padre José de Anchieta contou que os indígenas deixavam penas de aves, leques, flechas e outros objetos na estrada do sertão, como oferenda, pedindo ao Curupira que não lhes fizesse mal.
Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 26. Ver a página
Para refletir
Quem passou antes de você e deixou algo que até hoje facilita o seu caminho?