Everyday Omens

Achar um alfinete

Achar um alfinete e pegá-lo prometia amores, para uns portugueses, e intriga, para outros. Em Pernambuco, recolher alfinetes na rua estava entre as coisas que faziam mal.

O que pode significar

Poucos objetos geraram tantas regras contraditórias quanto o alfinete. Teófilo Braga anotou que, para os portugueses, achar alfinetes queria dizer amores; outra coleção portuguesa da mesma época dizia que achar um alfinete e pegá-lo atraía testemunho, isto é, alguém falando mal de você. Nas listas pernambucanas de 1908, recolher alfinetes na rua aparecia entre as coisas que faziam mal. Diante de um objeto tão pequeno, a escolha entre pegar e deixar ganhou peso de presságio. Essa confusão é libertadora: se as tradições não concordam, a decisão volta para você. Conselhos de família também se contradizem, e escolher entre eles sem culpa é algo que se aprende. A regra mais prática, aliás, é recolher o alfinete para ninguém pisar.

Depende de como você viu

Um alfinete de costura no tapete

Alfinetes de costura escapam das roupas recém-ajustadas e se escondem no tapete ou no piso. Um ímã passado devagar pelo chão encontra os que o olho não vê. Para o que é pequeno demais, a saída é mudar de ferramenta.

Um alfinete de segurança na calçada

O alfinete de segurança, com a ponta protegida, foi patenteado em 1849 nos Estados Unidos. Achado na rua, quase sempre se soltou de uma roupa ou de uma bolsa. Que pequeno improviso anda segurando alguma parte da sua vida?

Um alfinete escuro numa fresta do assoalho

Alfinetes velhos, escurecidos, aparecem em frestas de assoalho de casas antigas. Contam de costuras feitas ali mesmo, de roupas ajustadas em casa, um trabalho paciente que hoje quase não se vê.

Por que acontece na natureza

Alfinetes são finos, leves e pouco visíveis, por isso escapam com facilidade de roupas, costuras e embalagens e se perdem em tapetes e frestas. A ponta afiada pode ferir pés descalços e patas de animais. Um ímã ajuda a encontrá-los, porque a maioria é feita de aço.

O que dizem as crenças populares

Portugal

Na coletânea de Teófilo Braga, achar alfinetes indicava amores, e achar agulhas, testemunhos.

Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 108. Ver a página

Portugal

Na coleção portuguesa de Consiglieri Pedroso, achar um alfinete e apanhá-lo era sinal de testemunho. No Porto dizia-se que achar uma agulha não era bom, e na Beira e no Douro dar um alfinete queria dizer amor de um ano e um dia.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 102. Ver a página

Pernambuco (Brasil)

Na lista pernambucana de coisas que faziam mal, registrada em 1908, estava apanhar alfinetes na rua, assim como receber alfinetes de presente sem retribuir ao menos com um vintém.

Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 113. Ver a página

Para refletir

Quando dois conselhos que você recebeu se contradizem, em que você se apoia para escolher?