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Achar uma ferradura

Achar uma ferradura ainda faz muita gente pendurá-la na porta. No Porto do século XIX, a regra era precisa: ferradura do pé esquerdo, com número ímpar de furos, contra bruxas e outros males.

O que pode significar

Uma ferradura no chão tem algo de achado arqueológico: foi feita sob medida para um casco, gastou-se em quilômetros de estrada e caiu num dia qualquer. Quem a encontra raramente resiste a levá-la para casa. O curioso é como as regras antigas eram minuciosas. No Porto e na Beira, conforme Leite de Vasconcellos anotou em 1882, a ferradura pregada na porta tinha de ser do pé esquerdo e ter número ímpar de furos; nos Açores, pregava-se no mastro dos barcos a ferradura do pé esquerdo de uma mula. Nada era acaso: cada detalhe somava um sentido. Muita gente também tem regras assim, só suas, como a ordem de arrumar a mala ou o jeito de começar a semana, e por trás de muitas delas há uma história: uma avó, um primeiro emprego, um susto antigo.

Depende de como você viu

Gasta, com cravos ainda presos

Pregos ainda presos e tortos indicam que ela se soltou durante o trabalho do animal, e não que foi descartada na oficina. Se for pendurá-la, tire-os com cuidado e lave bem: metal velho tem pontas e ferrugem que machucam.

Contando os furos

Ferraduras costumam ter de seis a oito furos, conforme o modelo. A regra portuguesa pedia número ímpar, e quem achava contava antes de pregar. Contar devagar também é uma forma de dar atenção ao que se encontrou.

Achada numa viagem ao interior

Em cidades com cavalos de trabalho, charretes ou rodeios, ferraduras soltas ainda aparecem no chão de terra. Elas evocam um ofício antigo, o do ferrador, que muita gente da cidade nunca viu trabalhar.

Por que acontece na natureza

A ferradura é uma peça de ferro ou aço pregada no casco de cavalos, burros e mulas para proteger a parte que toca o chão. O casco cresce sem parar, como uma unha, e precisa ser aparado; por isso a ferradura é trocada de tempos em tempos e às vezes se solta pelo caminho. Os pregos atravessam só a parte do casco que não tem sensibilidade.

O que dizem as crenças populares

Porto e Beira (Portugal)

No Porto, sobretudo nas ruas mais afastadas do centro, e na Beira, era costume pregar na porta de casa uma ferradura do pé esquerdo, com número ímpar de furos, por causa das bruxas e de outros males.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 100. Ver a página

Açores (Portugal)

Nos Açores, segundo Teófilo Braga, citado por Leite de Vasconcellos, pregava-se no mastro de ré dos barcos a ferradura do pé esquerdo de uma mula, para livrar dos raios.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 100. Ver a página

Para refletir

Que pequena regra do seu dia a dia você aprendeu com alguém, e com quem?