Sal derramado
Sal derramado na mesa é um agouro antigo: em Pernambuco, já no século XVIII, ele aparecia entre os prognósticos de infelicidade. A cena convida a olhar o clima da mesa.
O que pode significar
O sal derramado quase sempre acontece no meio de uma refeição, com gente em volta, mãos cruzando a mesa, alguém pedindo o saleiro enquanto fala. Talvez por isso o gesto tenha ganhado tanto peso: a mesa é o ponto de reunião da casa, e qualquer acidente ali parece dizer algo sobre o clima entre as pessoas. Em Pernambuco, um cronista do século XVIII já listava o sal derramado entre os prognósticos de infelicidade; em Portugal, Teófilo Braga chamava o saleiro entornado de agouro terrível, comum a toda a Europa. Na Maia, ao contrário, o sal era a defesa: quando um agouro qualquer assustava os aldeões, eles o jogavam no fogo e ficavam descansados. O mesmo sal que preocupava na mesa servia, ali, para acalmar a casa.
Depende de como você viu
Derramou ao passar o saleiro
É a cena clássica: duas mãos, um saleiro e um descompasso. O incidente diz mais sobre o ritmo da mesa do que sobre o futuro. Passar as coisas devagar, olhando para quem recebe, muda a refeição inteira.
Sal espalhado no chão da cozinha
Entre os portugueses, segundo Teófilo Braga, pisar no sal também não era bom. Varrer logo evita o ruído de areia sob os pés e o sal levado para outros cômodos. Algumas coisas pedem atenção imediata, e outras podem esperar o fim do jantar.
O saleiro entupido de sal empedrado
Em dias úmidos o sal absorve água do ar e forma torrões. Alguns grãos de arroz dentro do saleiro ajudam a manter o sal solto. O problema, aqui, não é o sal, e sim o ar úmido da cozinha.
Por que acontece na natureza
O sal de cozinha é cloreto de sódio em cristais pequenos e soltos, que escorrem com facilidade de saleiros destampados ou inclinados. Ele atrai a umidade do ar e, em dias úmidos, empedra e entope os furinhos, o que leva muita gente a sacudir o saleiro com força. Por séculos o sal foi caro e essencial para conservar alimentos, e desperdiçá-lo pesava.
O que dizem as crenças populares
Pernambuco (século XVIII)
Loreto Couto, escrevendo em meados do século XVIII sobre as superstições de Pernambuco, incluía o sal derramado na mesa entre os prognósticos de infelicidade, ao lado do espelho quebrado e do uivo do cão.
Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 111. Ver a página
Portugal
Em Portugal, segundo Teófilo Braga, entornar o saleiro na mesa era um agouro terrível, comum a toda a Europa, e pisar no sal também não era bom.
Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 109. Ver a página
Maia (Portugal)
Na Maia, quando um agouro qualquer assustava os aldeões, eles jogavam sal no fogo e ficavam descansados.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 168. Ver a página
Para refletir
Como andam as conversas à sua mesa: quem fala, quem escuta e quem nunca consegue entrar?