Everyday Omens

Jogar o dente no telhado

O costume de jogar o dente de leite no telhado já era anotado no Brasil no século XIX: a criança atira o dente que caiu e, em troca, pede outro, mais firme. Em Portugal, ele ia para trás do forno ou para trás das costas.

O que pode significar

Perder o primeiro dente é, para muitas crianças, o primeiro encontro com uma perda do próprio corpo. Tem sangue, tem o buraco na gengiva, tem a estranheza de passar a língua onde antes havia algo firme. O costume do telhado não exige que a criança esconda o susto nem que finja que não doeu. Propõe outra coisa: que ela anuncie o que quer no lugar. A fórmula, dita de olho no telhado, é uma encomenda: um dente melhor, mais forte, bom para comer o pão. Adultos raramente fazem essa segunda parte. Diante de um emprego que acaba ou de um endereço deixado para trás, a gente lamenta, arruma as caixas, segue em frente, e quase nunca nomeia o que gostaria que viesse depois. Dizer o desejo não garante nada, mas dá direção à espera.

Depende de como você viu

A fórmula dita na hora

Cada família tem a sua, e muitas rimam. Nas fórmulas antigas, a criança entregava o dente velho e pedia um novo, às vezes em nome de São João. As palavras mudam de casa para casa; o pedido é o mesmo.

Em apartamento, sem telhado à vista

Muitas famílias adaptam: o dente vai para o telhado dos avós no fim de semana, para um vaso de planta ou para uma caixinha. O gesto e a fórmula pesam mais do que a altura.

Quando o dente cai na escola ou na rua

Às vezes o dente cai mordendo uma maçã no recreio e some. Dá para dizer a fórmula mesmo assim, com as mãos vazias, ou desenhar o dente e jogar o papel. Para a criança, o que importa é não deixar a passagem em branco.

Por que acontece na natureza

Os dentes de leite começam a cair por volta dos seis anos, empurrados pelos permanentes, que crescem por baixo e desgastam a raiz do dente antigo. Por isso o dente sai quase só com a coroa. A troca segue aos poucos, mais ou menos até os doze anos.

O que dizem as crenças populares

Portugal

Teófilo Braga registrou em Portugal que, quando a criança mudava os dentes, o que caía era atirado para trás do forno, com a fórmula: “Dente fora, outro já na cova!”.

Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 105. Ver a página

Vouzela (Portugal)

Leite de Vasconcellos anotou esta fórmula de Vouzela, dita pela criança ao se livrar do dente: “Dente fora, outro melhor na cova; em louvor de São João, que me dê outro melhor p’ra comer o pão”.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 205. Ver a página

Coreia (família nos EUA)

Num relato recolhido em 2016 pelo Arquivo Digital de Folclore da USC, uma mãe contou que, por influência do marido coreano, os filhos jogavam os dentes no telhado e pediam em troca um dente de rato, que cresce a vida inteira.

Fonte: park118 (USC Digital Folklore Archive), Korean Tooth Tradition (2016), folklore.usc.edu. Ver a página

Para refletir

Depois de uma perda recente, você já nomeou o que gostaria que viesse no lugar?