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Achar boneca na rua

Achar boneca na rua raramente esconde mistério: caiu do carrinho, escapou da mochila, foi deixada para doação. O desconforto vem de outra coisa: a boneca tem rosto, e a gente lê intenção em rostos.

O que pode significar

Uma boneca caída na calçada desperta uma reação que um carrinho de plástico não desperta. Ela tem olhos, boca, às vezes um vestido, e o cérebro reage a rostos com uma rapidez que a razão não acompanha. Por isso a cena oscila entre a pena e o arrepio. Parte do arrepio tem história: figuras humanas pequenas serviram a ritos antigos, e Teófilo Braga registrou que os romanos lançavam uma boneca ao Tibre. Bem mais provável, porém, é que em algum lugar uma criança tenha dado falta da sua. Olhar o achado com calma deixa claro o que é boneca e o que é projeção da imaginação.

Depende de como você viu

Perto de uma escola ou de uma parada de ônibus

São lugares onde brinquedos escapam de mochilas e colos. Deixar a boneca na secretaria da escola ou com o motorista da linha aumenta a chance de ela voltar para a dona.

Junto de velas, flores ou comida

Se a boneca está ao lado de velas, flores ou pratos de comida, faz parte de uma oferenda ou de uma homenagem. O respeito pede que tudo fique onde está.

Inteira, ao lado da lixeira

Brinquedos em bom estado deixados junto ao lixo muitas vezes foram postos ali de propósito, para quem quiser levar. Depois de lavada, a boneca pode ganhar outra dona.

Uma boneca de pano feita à mão

Bonecas costuradas à mão costumam ter dona muito apegada, porque raramente existe outra igual. Se houver nome ou etiqueta, pergunte nas casas e nos comércios do quarteirão.

Por que acontece na natureza

O cérebro humano reconhece rostos com muita rapidez e enxerga expressões até em objetos, o que faz uma boneca parecer encarar quem passa. Já a presença dela na rua se explica por quedas de carrinhos, janelas de carro e mochilas, e por doações deixadas na calçada.

O que dizem as crenças populares

Roma antiga e Índia

Teófilo Braga anotou que os romanos lançavam uma boneca ao Tibre e que, na Índia, se espetava com alfinetes a imagem da pessoa a quem se queria fazer mal.

Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 24. Ver a página

San Salvador (Bahamas)

Nas Índias Ocidentais Britânicas, e sobretudo em San Salvador, a feitiçaria dos tempos da escravidão usava bonecos de madeira com um espelho embutido na barriga, segundo Daniels e Stevans.

Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. III (1903), vol. III, p. 1453 (file v 3). Ver a página

Para refletir

Que objeto comum já assustou você até descobrir de onde ele tinha vindo?