Achar foto rasgada
Achar foto rasgada, na rua ou numa gaveta, é achar o fim de alguma história: um namoro, uma briga de família, uma raiva de um dia. A inquietação vem da velha ideia de que uma foto leva junto algo de quem aparece nela.
O que pode significar
Uma foto rasgada é uma decisão que ficou pela metade no chão. Alguém olhou para aquele rosto, sentiu algo forte o bastante para destruir a imagem e, mesmo assim, não a queimou nem a jogou no lixo de casa: deixou os pedaços onde outra pessoa pudesse vê-los. Quem acha tem diante de si um capítulo da vida de um estranho, sem começo e sem fim. Imagens de gente sempre pediram cuidados especiais: Daniels e Stevans contam que os yuma, nos Estados Unidos, resistiam a ser fotografados porque a imagem levaria algo deles, e que em Cuba dava azar mandar pintar alguém ainda vivo. Essa ideia antiga explica o arrepio diante de um rosto cortado ao meio. A cena pede, sobretudo, discrição com a dor alheia.
Depende de como você viu
Na rua, em pedaços
Fotos rasgadas jogadas num lote vazio ou na sarjeta são, muitas vezes, restos de uma briga recente ou de uma faxina. Juntar os pedaços não é obrigação; jogá-los num saco fechado poupa da exposição quem aparece neles.
Numa gaveta de casa
Uma foto rasgada guardada em casa é diferente: alguém quis destruí-la e não conseguiu se desfazer dela. Perguntar sobre ela pode abrir uma conversa difícil, e às vezes é melhor esperar a ocasião.
Com uma pessoa recortada
Recortar alguém da foto e manter o resto é um gesto comum depois de separações. A imagem continua mostrando o lugar e o dia, só que sem aquela presença.
Junto de velas, fitas ou outros objetos
Pode ser parte de um ritual de magia popular. Nesse caso, a regra de bom senso é não mexer e não levar nada para casa, por respeito e por cautela.
Por que acontece na natureza
Rasgar uma foto é um gesto comum de raiva ou de luto, porque a imagem concentra a memória de alguém num objeto que cabe na mão. Fotos impressas também se desfazem com o tempo, a umidade e o manuseio, e nem toda foto partida foi rasgada de propósito.
O que dizem as crenças populares
Yuma (EUA)
Entre os yuma, nos Estados Unidos, segundo Daniels e Stevans, havia forte resistência a ser fotografado: acreditava-se que a fidelidade da foto vinha de algo tirado da pessoa, e que essa perda logo causaria a morte.
Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. I (1903), vol. I, p. 481 (file v 1). Ver a página
Cuba
Em Cuba, conforme a mesma obra, dava azar mandar pintar o retrato de uma pessoa viva.
Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. I (1903), vol. I, p. 484 (file v 1). Ver a página
Para refletir
Que lembrança você guarda mesmo sem conseguir olhar para ela?