Cachorro uivando
Um cachorro uivando à noite costuma responder a sirenes, a outros cães ou à solidão. Na Maia, em Portugal, quem ouvia o uivo virava o sapato e dizia: “Todo o agoiro sobre o teu coiro”.
O que pode significar
O uivo é um dos sons que mais mexem com a gente, talvez por parecer tão humano, comprido e sentido. Não admira que tenha virado agouro em tantos lugares. Mas o mais interessante nas crenças antigas não é o medo, é a resposta a ele. Na Maia, quem ouvia um cão uivar descalçava o pé esquerdo, virava a sola do sapato para cima e devolvia o agouro ao próprio bicho; na Estremadura, o gesto vinha com outra frase. Era uma forma de fazer alguma coisa com o susto, em vez de ficar parado diante dele. Hoje os gestos são outros, mas cumprem a função do sapato virado: uma oração, um telefonema, uma luz acesa, uma respiração funda.
Depende de como você viu
Respondendo à sirene da ambulância
Muitos cães uivam junto com sirenes, buzinas ou música alta, como se respondessem a outro cão distante. Quando o som acaba, eles param. Às vezes também reagimos a um barulho do mundo como se fosse um chamado pessoal.
Uivando sozinho enquanto a família está fora
Cachorros que uivam na ausência dos donos podem estar sentindo falta de companhia, e os vizinhos ouvem mais do que a família. Vale perguntar aos vizinhos e, se for o caso, procurar ajuda de um adestrador ou de um veterinário.
Um uivo no meio da madrugada
Pode ser a resposta a outro cão longe demais para você ouvir, porque o uivo foi feito para viajar. Saber disso não tira o arrepio, mas coloca o arrepio no lugar dele, e isso já ajuda a dormir de novo.
Por que acontece na natureza
Uivar é uma forma de comunicação herdada dos lobos: serve para chamar o grupo e marcar presença a distância. Cães domésticos uivam em resposta a outros cães, a sirenes e a sons agudos, ou quando ficam sozinhos e ansiosos. Algumas raças, como huskies e beagles, uivam com mais facilidade.
O que dizem as crenças populares
Maia (Portugal)
Na Maia, quando um cão uivava, era preciso descalçar o pé esquerdo, virar a sola do sapato para cima e dizer “Todo o agoiro sobre o teu coiro”, para que o agouro ficasse sem efeito.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 168. Ver a página
Estremadura (Portugal)
Na Estremadura portuguesa também se virava o sapato de sola para cima quando o cão uivava, e quem estava ali dizia, pondo-se em cima dele: “Maria dá pão ao cão”.
Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 84. Ver a página
Pernambuco (Brasil)
Em Pernambuco, por volta de 1908, o uivo do cão era contado entre os prenúncios de morte, ao lado do urubu pousado no telhado ou voando em círculos sobre a casa.
Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 45. Ver a página
Para refletir
Que gesto seu faz o papel do sapato virado quando um medo chega de repente?