Anu-preto cantando
Ouvir um anu-preto cantando é ouvir um pássaro de bando, que vive em grupos barulhentos perto de pastos e quintais. Para os pernambucanos de cem anos atrás, o anu pousado nas árvores vizinhas das casas era mau agouro.
O que pode significar
O anu-preto raramente está sozinho. Anda em bando, se encosta nos companheiros num mesmo galho e, na época de reprodução, faz algo raro entre as aves: várias fêmeas põem ovos no mesmo ninho, e o grupo inteiro ajuda a chocar e alimentar os filhotes. O povo de Pernambuco, há um século, via no anu pousado perto de casa um agouro. A biologia oferece outra leitura, sem apagar a primeira: a de um bicho que só dá conta da vida porque divide o trabalho. Muita gente tenta dar conta de tudo sozinha, como se pedir ajuda fosse fracasso. O bando barulhento do quintal mostra outra possibilidade.
Depende de como você viu
Um bando gritando no pasto
Anus gostam de andar perto do gado, pegando gafanhotos e outros insetos espantados pelas patas dos bois. O grupo se move junto, sempre se chamando, e quem passa pela estrada ouve o bando antes de vê-lo.
Vários lado a lado no mesmo galho
Nas manhãs frias, é comum ver os anus enfileirados, encostados uns nos outros, às vezes com as asas abertas ao sol para se aquecer. A plumagem preta seca e esquenta mais depressa assim.
Um canto lamentoso, quase um gemido
O chamado do anu-preto é um assobio arrastado e queixoso, repetido por vários indivíduos. Ouvido de longe, perto do anoitecer, soa triste, mas é só o grupo mantendo contato.
Por que acontece na natureza
O anu-preto é uma ave da família dos cucos que vive em grupos de vários adultos. Os grupos defendem um território e, muitas vezes, várias fêmeas põem os ovos num único ninho comunitário, chocado e cuidado por todos. Come sobretudo insetos, muitos deles espantados pelo gado nos pastos.
O que dizem as crenças populares
Pernambuco (Brasil)
Em Pernambuco, registrou Pereira da Costa, o anu era de mau agouro quando vinha pousar nas árvores vizinhas às casas habitadas.
Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 45. Ver a página
Para refletir
O que você insiste em carregar sozinho, quando poderia dividir com o seu bando?