Beija-flor entrando em casa
Para muita gente hoje, um beija-flor que entra na sala é motivo de alegria. Em 1908, Pereira da Costa anotou a mesma cena, em Pernambuco, entre os maus agouros: a leitura de uma visita muda com o tempo.
O que pode significar
Poucas crenças deixam ver tão bem a passagem do tempo. Num inventário de superstições pernambucanas publicado em 1908, o beija-flor que se metia dentro de casa aparecia ao lado do morcego e da borboleta preta: era agouro. Hoje, em boa parte do Brasil, a mesma cena arranca sorrisos. O passarinho é o mesmo; o que mudou foram as pessoas que olham para ele. Essa pode ser a reflexão mais rica que a visita oferece: quantas das suas certezas vieram prontas da família, e quantas você revisou com os próprios olhos? Uma avó e uma neta podem ver a mesma cena e sentir coisas opostas, e as duas estão sendo fiéis ao seu tempo.
Depende de como você viu
Batendo no teto ou na claraboia
Assustado, o beija-flor voa para cima, rumo à claridade, e não acha a janela aberta mais abaixo. Feche as cortinas das outras janelas, deixe uma só aberta e espere em silêncio. Ele se cansa rápido. A pressa em ajudar, aqui, atrapalha mais do que a paciência.
Parado no ar diante de você
Ele bate as asas tão rápido que parece suspenso, e às vezes encara de perto uma roupa ou um objeto vermelho, como quem confere uma flor. A curiosidade é por comida, não por você. Ainda assim, é um momento raro: dá para guardar sem precisar transformar em mensagem.
Quando a casa tem flores na janela
Vasos com flores tubulosas, como as de hibisco ou de camarão, viram parada obrigatória, e de vez em quando o passarinho erra o caminho e entra. Se as visitas são frequentes, a casa já faz parte da rota dele. É um elogio silencioso ao jardim que você mantém.
Por que acontece na natureza
Beija-flores gastam muita energia e precisam visitar muitas flores por dia em busca de néctar. Cores fortes, sobretudo o vermelho, atraem a atenção deles, e por isso bebedouros costumam ter essa cor. Dentro de casa, tendem a voar para o alto, em direção à luz, e podem se exaurir em pouco tempo.
O que dizem as crenças populares
Pernambuco (Brasil)
Em Pernambuco, um registro de 1908 incluía o beija-flor entre os bichos de mau agouro quando entravam em casa, ao lado das borboletas pretas, das formigas de asas e do morcego.
Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 45. Ver a página
Para refletir
Qual crença da sua família você já leu de um jeito diferente do que lhe ensinaram?