Coruja em casa
Uma coruja em casa, no telhado ou no quintal, costuma ser a suindara caçando ratos. O grito dela parece pano rasgando, e esse som ajuda a entender a fama de mau agouro que a ave carrega.
O que pode significar
Antes de qualquer interpretação, vale reparar no som. A suindara não pia como as corujas dos desenhos animados: ela solta um chiado rouco e comprido, que muita gente compara a um tecido sendo rasgado. Daí o apelido rasga-mortalha, e daí também o medo antigo, porque a imaginação enche de histórias aquilo que se ouve sem ver. Muitos receios noturnos nascem assim, de barulhos sem rosto. Nas crenças recolhidas em Pernambuco e em Portugal, a coruja pousada no telhado era mau agouro, e o grito dela, prenúncio de luto. Ouvir de novo, sabendo que é uma suindara atrás dos ratos do forro, já muda a noite.
Depende de como você viu
Grito no telhado de madrugada
O chiado que acorda a casa vem, na maioria das vezes, de uma suindara pousada na cumeeira ou cruzando o espaço entre os prédios. Se o susto já passou, experimente ouvir com atenção da próxima vez. Dar nome a um som tira dele uma parte do peso, e o que era ameaça vira só mais uma moradora do bairro.
Coruja acordada em plena luz do dia
Uma coruja de pé num cupinzeiro, num poste baixo ou na grama de uma praça, encarando o sol, provavelmente é uma coruja-buraqueira. Ela vive em tocas e tem hábitos diurnos. Ver uma coruja fora do horário que a fama manda é um bom lembrete de que as regras que a gente atribui aos outros nem sempre valem.
Morando no forro ou na torre da igreja
Os nomes populares contam onde ela gosta de ficar: coruja-da-igreja, coruja-católica, bebe-azeite. Forros, celeiros e torres oferecem abrigo seco e alto, perto de onde os ratos circulam. Se uma família de suindaras se instalou na sua casa, pense no que você aceita dividir e no que prefere vedar, com calma e sem maltratar a ave.
Encontrada caída no quintal
Às vezes uma coruja jovem vai parar no chão ainda sem voar direito e fica imóvel, de olhos arregalados. O mais seguro é não levar para dentro de casa e pedir orientação ao órgão ambiental da cidade ou à polícia ambiental. Cuidar de um bicho selvagem muitas vezes começa por saber a hora de chamar quem entende.
Por que acontece na natureza
A suindara (Tyto furcata) é noturna e caça sobretudo roedores, guiando-se pela audição mesmo sem nenhuma luz. Faz ninho em forros, celeiros, ruínas e torres de igreja, por isso aparece tanto perto das pessoas. Sua voz é um grito rouco, parecido com pano rasgando, e não o famoso “uh-uh” de outras corujas.
O que dizem as crenças populares
Pernambuco (Brasil)
Pereira da Costa registrou em Pernambuco que o canto triste de uma coruja ao cair da tarde, ou o simples pouso dela sobre o telhado de uma casa, era tido pelo povo como mau agouro.
Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 45. Ver a página
Portugal
Em Portugal, quando a coruja pousava num telhado e soltava o grito rouco ou um sopro parecido com o ronco de quem dorme de boca aberta, dizia-se que chamava alguém à sepultura. O medo era maior se houvesse um doente em casa.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 159. Ver a página
Guarda (Portugal)
Perto da Guarda contava-se que as aves emprestaram penas a um passarinho pelado, o pito-nu, e que a coruja ficou de fiadora. Ele fugiu vestido, e desde então a coruja só aparece à noite, com medo de ser bicada pelas credoras.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 164. Ver a página
Estremadura (Portugal)
Na Estremadura portuguesa, o piar dos mochos era tido como agourento, e o caçador que cruzasse com um mocho podia contar que voltaria sem caça naquele dia.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 162. Ver a página
Para refletir
Quais barulhos da noite ainda assustam você antes mesmo de saber de onde vêm?