Ver um corvo
Ver um corvo é raro no Brasil, onde essa família de aves aparece na forma das gralhas. Por isso o encontro chega carregado de imagens de livros, como o poema de Poe, mais do que de convivência.
O que pode significar
Quem nunca viu um corvo de perto pode ouvir, só de pensar nele, o refrão “nunca mais” do poema de Edgar Allan Poe, que Machado de Assis e Fernando Pessoa traduziram para o português. A ave de carne e osso é outra coisa: barulhenta, curiosa, ocupada em achar comida. Essa diferença entre o bicho e a fama dá o que pensar. No poema, o corvo repete a mesma palavra até o narrador desmoronar. Na vida, também há frases que a gente repete por dentro sem conferir se ainda valem, como “isso não é para mim” ou “sempre foi assim”. Nas aldeias portuguesas do século XIX, ouvir um corvo era sempre mau, e em Vouzela havia até versos para mandá-lo buscar comida bem longe, no Porto.
Depende de como você viu
Numa viagem pela Europa ou pela América do Norte
É nesses lugares que a maioria dos brasileiros vê corvos e gralhas-pretas pela primeira vez, ciscando em parques, praias e lixeiras. Eles se acostumam com gente e chegam bem perto. O estranhamento é de quem chega, não deles: vale a pena ficar uns minutos só assistindo à rotina de um bicho que, ali, é tão comum quanto o pombo aqui.
Grasnando do alto de um telhado
Era uma cena temida nas aldeias portuguesas antigas. Hoje dá para ouvir de outro jeito: corvos chamam uns aos outros para avisar de perigo ou de comida. Quando um alarme seu dispara alto, ele está avisando de algo real ou só repetindo um velho costume?
Uma ave preta que pode não ser corvo
No Brasil, quando alguém conta que viu um corvo, muitas vezes era outra ave escura, como o urubu pousado num poste ou o anu-preto no pasto. Olhar com atenção para o bico, o voo e o tamanho desfaz boa parte do mistério, e é um exercício bom também para outras primeiras impressões.
Por que acontece na natureza
Corvos e gralhas formam a família dos corvídeos, conhecida pela inteligência: escondem comida para depois e resolvem problemas para alcançá-la. O Brasil não tem corvos nativos; aqui a família é representada pelas gralhas, como a gralha-azul, ave-símbolo do Paraná. O urubu, às vezes chamado de corvo, pertence a outro grupo, o dos abutres das Américas.
O que dizem as crenças populares
Portugal
Em Portugal, segundo um registro de 1882, o corvo era ave agourenta em toda parte: ouvi-lo nunca era bom, e o grito dele sobre o telhado de uma casa com doente era tomado como aviso de morte.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 158. Ver a página
Vouzela (Portugal)
Em Vouzela, quando o corvo grasnava, respondia-se com versos pedindo que ele não tocasse no gado, nem no preto, nem no branco, nem no misturado, e que fosse buscar comida bem longe, no Porto.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 158. Ver a página
Paços de Ferreira (Portugal)
Em Paços de Ferreira contava-se que o corvo ganhou a voz feia por zombar de uns pedreiros que suavam para arrancar uma pedra no monte, gritando para eles “scaba, scaba”.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 158. Ver a página
Para refletir
Qual frase funciona como o seu “nunca mais”, repetida por dentro sempre que você pensa em tentar de novo?