Everyday Omens

Sapato em cima da mesa

Sapato em cima da mesa incomoda até quem não liga para superstição: é a sola da rua no lugar da comida. Na Boêmia, dizia-se ainda que quem punha os sapatos na mesa ficava com os pés doendo.

O que pode significar

Em boa parte das casas do Brasil, o sapato fica na porta, e quem entra calçado leva bronca. A mesa é o extremo oposto: lugar de comer, de servir, de sentar junto. Um par de tênis largado ali, recém-chegado da rua, junta dois mundos que a casa tenta manter separados. A cena serve para outras misturas: o notebook aberto no jantar, o celular de trabalho tocando no almoço de domingo, a reunião que entra no quarto. Nada de grave acontece por isso, mas a mesa vai perdendo o que tinha de diferente. Recolher o sapato e passar um pano resolve a mesa; decidir o que, na sua rotina, não deve subir nela dá mais trabalho.

Depende de como você viu

Sapato novo, ainda na caixa

Ainda na caixa, com o papel de seda, o sapato novo chega à mesa como presente a ser mostrado. Sola sem uso não traz a rua junto, e a cena tem mais de festa do que de descuido.

Virado de sola para cima

Teófilo Braga anotou em Portugal que achar o sapato virado na hora de calçar era revés. Até hoje, há quem desvire logo o chinelo que ficou de sola para cima.

Chinelo largado no meio da sala

Um chinelo esquecido no caminho é a versão doméstica do sapato fora do lugar: ninguém repara até tropeçar. Um canto fixo para os calçados resolve a maior parte dessas pequenas brigas.

Por que acontece na natureza

Solas de calçados tocam calçadas, pisos públicos e banheiros e levam terra e resíduos para onde forem apoiadas. Por isso muitas famílias deixam os sapatos na entrada. A mesa de refeições, por outro lado, é a superfície onde comida, pratos e talheres ficam apoiados diretamente.

O que dizem as crenças populares

Boêmia (atual Chéquia)

Na Boêmia, segundo um registro de 1903, nunca se deviam pôr sapatos e meias sobre a mesa, para não ficar com os pés doendo.

Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. I (1903), vol. I, p. 494. Ver a página

Portugal

Teófilo Braga registrou em Portugal que o sapato virado com a sola para o ar fazia sair as visitas importunas, e que achá-lo virado na hora de calçar era revés.

Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 110. Ver a página

Pernambuco (Brasil)

Em Pernambuco, segundo Pereira da Costa, deixar os chinelos virados fazia mal.

Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 113. Ver a página

Para refletir

O que da rua, do trabalho ou do celular anda subindo na mesa da sua casa sem ser convidado?