Everyday Omens

Vassoura de cabeça para baixo

Uma vassoura virada, com o cabo no chão e escondida atrás da porta, servia, na Estremadura portuguesa e em Pernambuco, para apressar a saída da visita que não ia embora. Era um recado mudo para um assunto difícil de dizer.

O que pode significar

Quase todo mundo já viveu a cena dos dois lados: a visita que se levanta, senta de novo, começa outro assunto já na porta, e o anfitrião que boceja escondido. Dizer que está na hora parece grosseria, então as famílias inventaram atalhos. Na Estremadura portuguesa, a vassoura ia para trás da porta com o cabo no chão; em Pernambuco, juntava-se a ela uma tesoura espetada na parede e sal no fogo. São recados que ninguém precisa pronunciar. A crença tem graça justamente porque expõe um aperto real: muita gente sabe receber e não sabe encerrar. Uma despedida clara e carinhosa, do tipo “amanhã eu acordo cedo, adorei a visita”, dói menos do que qualquer vassoura escondida.

Depende de como você viu

Encostada no canto, com as cerdas para cima

Em muitas casas, a vassoura fica pendurada ou com as cerdas para cima apenas para não deformar os fios. Nesses casos não há recado nenhum para ninguém. Antes de ler mensagem num objeto, vale perguntar quem o guardou daquele jeito, e por quê.

Virada no meio de uma visita

Se alguém da casa virou a vassoura enquanto a visita ainda estava sentada, a brincadeira pode ser carinho ou cansaço, e os dois cabem. O difícil é quando ninguém fala nada e o mal-estar fica no ar até a porta.

Com as cerdas para o alto, num dia comum

Teófilo Braga registrou outra leitura entre os portugueses: vassoura voltada para o ar anunciava bulhas, isto é, discussão em casa. A mesma posição que mandava embora a visita também prometia confusão, o que talvez explique por que tanta gente prefere deixá-la simplesmente encostada.

Por que acontece na natureza

Vassouras apoiadas sobre as cerdas por muito tempo tendem a ficar com os fios dobrados, porque o peso do cabo força sempre o mesmo lado. Por isso as dicas de limpeza recomendam pendurá-las pelo cabo ou guardá-las com as cerdas para cima, em lugar seco. A posição que virou crença é, em muitas casas, apenas uma forma de conservar a vassoura.

O que dizem as crenças populares

Estremadura (Portugal)

Na Estremadura portuguesa, para fazer ir embora uma visita demorada, punha-se atrás da porta uma vassoura com o cabo para o chão.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 101. Ver a página

Pernambuco (Brasil)

Em Pernambuco, para que se retirasse logo uma visita prolongada e impertinente, espetava-se uma tesoura na parede, virava-se uma vassoura atrás da porta e jogava-se sal no fogo.

Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 114. Ver a página

Portugal

Teófilo Braga anotou entre os portugueses que a vassoura voltada para o ar era agouro de bulhas, isto é, de discussão em casa.

Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 108. Ver a página

Para refletir

Quando uma visita passa da hora, você consegue dizer isso com clareza ou espera que ela perceba sozinha?