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Ver o Cruzeiro do Sul

Ver o Cruzeiro do Sul é achar a menor das 88 constelações: quatro estrelas em cruz no céu do sul, visíveis de todo o Brasil em parte do ano. Para os guaranis, elas seguram a cabeça de uma ema feita de estrelas.

O que pode significar

Quem procura o Cruzeiro do Sul pela primeira vez se surpreende com o tamanho: é a menor das constelações oficiais. No céu guarani, porém, essas poucas estrelas fazem um trabalho enorme. São a cauda e a perna de um veado e seguram a cabeça da Ema, a grande ave de estrelas que aparece inteira nas noites de junho. Se ela se soltasse, beberia toda a água da Terra. Os europeus viram ali uma cruz; os guaranis, um pedaço de veado com uma tarefa. A lenda dá ao pequeno a função de conter o grande, noite após noite, sem plateia. Em quase toda família existe alguém nesse papel: a avó que mantém os parentes unidos, o irmão que acalma a discussão antes que ela cresça, a amiga que cuida das contas. Na próxima vez que achar o Cruzeiro no céu, pense em quem faz esse trabalho ao seu redor.

Depende de como você viu

Em pé, nas noites de outono

Entre abril e junho, nas primeiras horas da noite, o Cruzeiro sobe alto no céu do sul e chega a ficar com o braço maior quase na vertical. Com o passar das horas, ele gira em volta de um ponto vazio do céu e vai se inclinando para o lado do poente.

Uma cruz maior e mais apagada

Quem procura pela primeira vez às vezes encontra o Falso Cruzeiro, uma cruz maior e mais fraca formada por estrelas de outras constelações. O verdadeiro é compacto e tem ao lado duas estrelas muito brilhantes, Alfa e Beta do Centauro, que ajudam a confirmar o achado.

No Norte, rente ao horizonte

Quanto mais perto do equador, mais baixo ele aparece. Em Boa Vista, o ponto em torno do qual o Cruzeiro gira já fica um pouco abaixo do horizonte, mas a cruz ainda se mostra baixinha no sul em parte do ano.

Comparando com a bandeira

As estrelas da bandeira reproduzem o céu do Rio de Janeiro às 8h30 de 15 de novembro de 1889, desenhado como se fosse visto de fora da esfera celeste. Por isso o Cruzeiro do pano aparece espelhado em relação ao que se vê do quintal. A quinta estrela, menor e meio fora da cruz, tem até apelido: Intrometida.

Sonhou com estrelas?O significado nos sonhos, no Night Symbols

Por que acontece na natureza

O Cruzeiro do Sul é a menor das 88 constelações oficiais. Fica perto do polo celeste sul e, por isso, gira em torno dele ao longo da noite e do ano. Prolongando o braço maior a partir do pé da cruz, onde fica a estrela mais brilhante, por cerca de quatro vezes e meia o seu comprimento, chega-se perto desse polo, onde nenhuma estrela de destaque marca o lugar.

O que dizem as crenças populares

Guaranis (Brasil)

No mito guarani, a cauda e a perna da constelação do Veado, que correspondem ao Cruzeiro do Sul, seguram a cabeça da Ema. Se ela se soltasse, beberia toda a água da Terra, e todos morreriam de seca e de sede.

Fonte: Paulo Henrique Colonese (org.); Ana Carolina do Amaral Pitta et al., Fiocruz, Casa de Oswaldo Cruz, Céus astro-culturais: Ema guarani, Garça tukano, Porco-selvagem maia e o Carneiro das Montanhas navajo (Coleção Culturas Estelares, v. 3) (2021), p. 57. Ver a página

Guaranis (Brasil)

Para os guaranis, a constelação da Ema, que tem a cabeça junto ao Cruzeiro do Sul, surge inteira ao anoitecer no mês de junho e marca a estação seca.

Fonte: Paulo Henrique Colonese (org.); Ana Carolina do Amaral Pitta et al., Fiocruz, Casa de Oswaldo Cruz, Céus astro-culturais: Ema guarani, Garça tukano, Porco-selvagem maia e o Carneiro das Montanhas navajo (Coleção Culturas Estelares, v. 3) (2021), pp. 55-56. Ver a página

Maranhão (século XVII)

Num livro de 1614, o capuchinho Claude d'Abbeville contou que os tupinambás do Maranhão conheciam bem a constelação de quatro estrelas em forma de cruz e a chamavam de Crussa, palavra que, segundo ele, queria dizer “cruz”.

Fonte: Claude d'Abbeville, Histoire de la mission des pères capucins en l'isle de Maragnan et terres circonvoisines (1614), fol. 318. Ver a página

Maranhão (século XVII)

Os mesmos tupinambás do Maranhão viam no céu a Yandoutin, uma ave de estrelas grandes e brilhantes, várias delas formando um bico, e diziam que ela queria comer duas estrelas vizinhas, que chamavam de “os dois ovos”.

Fonte: Claude d'Abbeville, Histoire de la mission des pères capucins en l'isle de Maragnan et terres circonvoisines (1614), fol. 319. Ver a página

Para refletir

Na sua família ou no seu trabalho, quem segura sozinho um peso grande, e quem já reparou nisso?