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Apontar para estrela dá verruga

Apontar para estrela dá verruga, diziam os antigos de Pernambuco e de terras portuguesas, e contar estrelas também. A proibição tirava o dedo do céu e obrigava a guiar o olhar com palavras.

O que pode significar

Quem cresceu ouvindo que apontar para estrela faz nascer verruga aprendeu outra habilidade sem perceber: mostrar uma estrela sem usar o dedo. “Está vendo aquela mais forte, perto da árvore? Agora sobe um pouco, à esquerda.” É preciso paciência, referências e atenção a como o outro está olhando. A proibição, no fundo, treinava a conversa. O mesmo acontece com muita coisa difícil de apontar, como um sentimento, uma ideia, um caminho que só você enxerga. Apontar é rápido; guiar o olhar de alguém até onde você está olhando exige descrever o céu do jeito dele. Numa noite estrelada, vale tentar levar alguém até uma estrela só com palavras.

Depende de como você viu

Contando estrelas

Contar estrelas era tão proibido quanto apontar, e tão impossível quanto. Para criança, a ameaça das verrugas era o melhor motivo para continuar contando escondido, uma por uma, até perder a conta.

Partindo das Três Marias

Sem apontar, o mais fácil é começar por estrelas que quase todo mundo reconhece, como as Três Marias, alinhadas no céu das noites de verão. A partir delas, “duas mãos para a direita” ou “logo abaixo” já levam o outro até a estrela certa.

Uma estrela fraca que some quando você olha

Algumas estrelas aparecem com o canto do olho e desaparecem quando você olha direto para elas. O truque dos astrônomos é olhar um pouco para o lado. Há coisas que se veem melhor sem encarar.

Por que acontece na natureza

Não há relação conhecida entre olhar ou apontar para o céu e o surgimento de verrugas. A visão noturna depende sobretudo de células mais abundantes nas bordas da retina, por isso estrelas fracas aparecem melhor quando se olha ligeiramente para o lado, técnica usada por astrônomos amadores.

O que dizem as crenças populares

Pernambuco (Brasil)

Em Pernambuco, segundo Pereira da Costa, apontar para uma estrela, ou mesmo contá-las, fazia nascer verrugas e cravos nos dedos.

Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 119. Ver a página

Portugal

Entre os portugueses, conforme Teófilo Braga, quem contava as estrelas ganhava nas mãos tantas verrugas quantas estrelas tivesse contado.

Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 69. Ver a página

Minho (Portugal)

No Minho, segundo Leite de Vasconcellos, uma fórmula para proteger os campos mandava que a bruxa que quisesse levar a colheita tivesse antes de contar as estrelas do céu e as areias do mar.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 235. Ver a página

Para refletir

Que coisa só sua você ainda não encontrou palavras para fazer alguém enxergar?