Ver um raio
Ver um raio cair perto assusta, e o ditado tranquiliza: raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Só que cai. O Cristo Redentor é atingido várias vezes por ano, e é por isso que tem para-raios.
O que pode significar
O ditado é antigo e reconfortante: raio não cai duas vezes no mesmo lugar. A física discorda. Pontos altos e expostos, como torres, para-raios e o próprio Cristo Redentor, são atingidos de novo e de novo, justamente porque continuam sendo o caminho mais fácil para a descarga. Quem confia no ditado relaxa; quem conhece o raio instala para-raios. Ditados assim fazem bem na hora do susto, e é aí que mora o risco: um consolo bonito pode tomar o lugar de um cuidado. “Comigo não acontece” e “isso já passou” acalmam do mesmo jeito, sem conferir nada. O raio não lê ditados; cai onde o terreno manda, quantas vezes for preciso.
Depende de como você viu
Caindo perto de casa durante o temporal
Dentro de casa, longe das janelas e sem mexer em aparelhos ligados na tomada, é onde se está mais protegido. O Brasil é o país com maior incidência de raios do mundo, e esse cuidado vale para boa parte do ano em muitas regiões.
Debaixo de uma árvore, no campo
Em Pernambuco, conforme Pereira da Costa, era perigoso ficar sob árvores quando trovejava, sobretudo a cajazeira. A recomendação de não se abrigar sob árvores isoladas continua valendo, para qualquer espécie.
Clarões silenciosos no horizonte
Quando o clarão vem sem barulho nenhum, a tempestade está tão distante que o som se perde no caminho. Mesmo assim, é sinal de nuvem carregada no horizonte, e ela pode estar vindo na sua direção.
Por que acontece na natureza
O raio é uma descarga elétrica entre a nuvem e o solo que aquece o ar do canal a temperaturas altíssimas, produzindo o clarão e o trovão. Ele tende a atingir pontos altos e expostos, por isso o mesmo lugar pode ser atingido repetidas vezes. Segundo o grupo de eletricidade atmosférica do Inpe, o Brasil é o país com maior incidência de raios do mundo.
O que dizem as crenças populares
Moncorvo e Famalicão (Portugal)
Em Moncorvo e em Famalicão dizia-se que havia pedras de raio e pedras de corisco, estas menores do que aquelas.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 63. Ver a página
Beira e Douro (Portugal)
Na Beira e no Douro dizia-se que o raio não se apaga com água, só com fogo.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 64. Ver a página
Mondim, Sinfães e Fafe (Portugal)
Em Mondim da Beira, em Sinfães e em Fafe, quando relampejava, o povo dizia que era o céu que se abria.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 62. Ver a página
Pernambuco (Brasil)
Em Pernambuco era perigoso, quando trovejava, ficar debaixo de árvores, principalmente da cajazeira, que teria uma atração particular pelas faíscas elétricas.
Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 112. Ver a página
Para refletir
Que frase tranquilizadora você costuma repetir sem nunca ter conferido se é verdade?