Everyday Omens

Ouvir trovão

Ouvir trovão depois do clarão permite medir a tempestade: cada três segundos de intervalo correspondem a cerca de um quilômetro. Em Sinfães, o povo dizia que o trovão era Deus arrastando as cadeiras depois do jantar.

O que pode significar

Um estrondo sacode a janela e o corpo inteiro se encolhe. Em seguida, alguém da casa começa a contar: um, dois, três, desde o clarão até o barulho. Cada três segundos, mais ou menos um quilômetro. A contagem não afasta a tempestade, mas muda a relação com ela: o susto vira um número, e o número diz se ela está chegando ou indo embora. Muitas preocupações merecem o mesmo método. Em vez de reagir a cada estrondo, dá para perguntar a que distância o problema está, se ele se aproxima ou se já passou, e quanto tempo há entre o aviso e o impacto. Em Alijó, dizia-se que o trovão era Deus ralhando no céu; contar segundos é um jeito de responder ao ralho sem pânico.

Depende de como você viu

Trovão de madrugada

No escuro, o estrondo parece mais perto, porque quem estava dormindo não viu o clarão que veio antes. Contar a partir do próximo relâmpago devolve a noção de distância.

Um ronco longo e rolado

Trovões distantes chegam como um ronco comprido, porque as ondas sonoras passam por camadas de ar diferentes até alcançar você. Em Portugal, segundo Consiglieri Pedroso, dizia-se que eram carros rodando no céu.

Com uma criança com medo

Inventar uma explicação doméstica para o barulho é costume antigo: em Sinfães, era Deus arrastando as cadeiras depois do jantar. Somar a história à contagem dos segundos acalma duas vezes.

Por que acontece na natureza

O trovão é o som da expansão violenta do ar aquecido pelo raio, que produz uma onda de choque. Como a luz chega quase instantaneamente e o som viaja a cerca de 343 metros por segundo, o intervalo entre o clarão e o estrondo indica a distância: aproximadamente três segundos por quilômetro.

O que dizem as crenças populares

Alijó e Sinfães (Portugal)

Em Alijó dizia-se que o trovão é o barulho que Deus faz ao ralhar no céu; em Sinfães, que era Deus arrastando as cadeiras depois do jantar.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 65. Ver a página

Portugal

Em Portugal dizia-se ainda que, quando trovejava, não era bom fechar portas e janelas, porque seria batê-las na cara do Senhor.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 65. Ver a página

Indígenas do Brasil

Para os indígenas, segundo Pereira da Costa, a covardia ou os desmandos de uma tribo ofendiam o espírito que dominava as tempestades, e ele mostrava a sua cólera pelo trovão.

Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 119. Ver a página

Para refletir

Que preocupação parece estar em cima de você, mas talvez ainda esteja a quilômetros?