Everyday Omens

Pé de alecrim

Um pé de alecrim só solta todo o perfume quando alguém encosta nele. Em Gaia, perto do Porto, corria um verso que fazia disso uma regra: quem passava pelo alecrim e não cheirava, se mal estava, pior ficava.

O que pode significar

O alecrim guarda o cheiro nas folhas finas e só o entrega por inteiro a quem passa a mão nelas. Quem segue reto, com pressa, quase não sente nada. O verso de Gaia transformava esse detalhe em conselho: passar pelo alecrim sem cheirar deixava a pessoa pior do que estava. Exagero de poeta popular, talvez, mas com um fundo bem verdadeiro. O cheiro do café antes do primeiro gole é parecido: está ali todas as manhãs e só se revela a quem dedica meio segundo a ele. O alecrim não insiste; espera.

Depende de como você viu

Esmagado entre os dedos

Esfregar uma folha entre o polegar e o indicador rompe glândulas minúsculas da superfície e libera o óleo aromático. O cheiro fica nos dedos por um bom tempo, como um recado da passagem.

Debruçado sobre a grade de uma casa

Um pé de alecrim que escapa pela grade é convite discreto. Pedir licença para colher um ramo pode render uma conversa com quem o plantou.

Pendurado para secar na cozinha

Ramos pendurados perdem a água e conservam boa parte do aroma. Amassar uma folha seca entre os dedos ainda devolve um pouco do perfume do pé.

Por que acontece na natureza

O alecrim (Salvia rosmarinus, antes chamado Rosmarinus officinalis) é um arbusto aromático da família da hortelã, nativo da região do Mediterrâneo. O perfume vem de óleos voláteis produzidos em glândulas minúsculas na superfície das folhas; quando elas são esfregadas ou amassadas, parte dessas glândulas se rompe e libera o cheiro.

O que dizem as crenças populares

Vila Nova de Gaia (Portugal)

Em Vila Nova de Gaia diziam-se estes versos sobre o alecrim: “Quem pelo alecrim passou e não cheirou, se mal estava, pior ficou”.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 109. Ver a página

Portugal

Em Portugal, segundo Teófilo Braga, o cheiro do alecrim queimado afugentava os raios, e o ramo tinha poder contra os feitiços.

Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 71. Ver a página

Pernambuco (Brasil)

Em Pernambuco, para desviar as faíscas elétricas quando trovejava, era bom queimar alecrim seco ou palmas bentas do Domingo de Ramos.

Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 119. Ver a página

Moncorvo (Portugal)

Em Moncorvo cantava-se: “Não há sábado sem sol, nem alecrim sem flor, nem menina bonita sem amor”.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 13. Ver a página

Para refletir

Qual cheiro do seu dia você só percebe quando desacelera?