Everyday Omens

Azeite derramado

Perto do Porto, azeite derramado no chão prenunciava bate-boca em casa. A resposta era jogar sal em cruz e marcar a briga para quando aquele sal chegasse ao mar, ou seja, para nunca.

O que pode significar

O mais bonito dessa crença não é o agouro, é a saída que ela inventou. Quem deixava cair azeite perto do Porto não fingia que nada tinha acontecido: espalhava sal em cruz sobre a mancha e dizia que só haveria briga quando aquele sal chegasse ao mar. É um prazo impossível, dito com cara séria, que desarma a tensão antes que ela comece. E o acidente quase sempre vem na pior hora, com a panela no fogo e alguém que já chegou cansado. O sal em cruz não resolvia a briga; empurrava a conversa para mais tarde, quando ninguém estivesse com as mãos engorduradas e a voz alterada.

Depende de como você viu

No chão da cozinha

Antes de qualquer interpretação, a prioridade é o piso, que fica escorregadio. Papel-toalha primeiro, para tirar o grosso, depois água com detergente. Um pano só molhado espalha a mancha em vez de recolhê-la.

Na toalha ou na roupa

O óleo entra na trama do tecido e deixa uma marca escura, com cara de molhada. Quanto antes ela receber detergente, melhor sai. Esfregar com força só alastra a gordura pelo pano.

Escapando da garrafa no meio do preparo

Garrafa engordurada por fora escorrega da mão com facilidade, sobretudo quando se cozinha correndo. Se o azeite caiu enquanto você fazia três coisas ao mesmo tempo, o tombo conta mais sobre o ritmo da cozinha do que sobre o futuro.

Por que acontece na natureza

Azeite e óleo são gorduras e não se misturam com a água, por isso um pano só molhado espalha a mancha. O detergente tem moléculas que se ligam ao mesmo tempo à água e à gordura, formando pequenas estruturas que envolvem o óleo e deixam a água levá-lo embora. No piso, a camada fina de gordura reduz o atrito e deixa o chão escorregadio.

O que dizem as crenças populares

Arredores do Porto (Portugal)

Perto do Porto, azeite derramado no chão era prenúncio de ralhos em casa. Jogava-se sal em cruz por cima, dizendo que só haveria briga quando aquele sal chegasse ao mar.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 127. Ver a página

Portugal

Teófilo Braga registrou em Portugal que azeite derramado em casa era agouro de desordem e que se devia jogar logo sobre ele um punhado de sal em cruz.

Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 108. Ver a página

Para refletir

Que discussão da sua casa ficaria melhor se fosse marcada para depois, quando os ânimos esfriassem?