Everyday Omens

Varrer os pés de alguém

Varrer os pés de alguém solteiro, diziam em Pernambuco, fazia a pessoa não casar. A frase ainda escapa em muitas cozinhas, meio de brincadeira, e carrega uma pergunta que a família nem sempre faz em voz alta.

O que pode significar

Basta a vassoura encostar no pé de uma moça ou de um rapaz solteiro para alguém da família soltar: “Pronto, não casa mais!”. Todo mundo ri, e quem levou a vassourada ri também, nem sempre por vontade. No folclore pernambucano de 1908, varrer os pés de um solteiro era coisa que fazia mal, e no Douro quem fosse atingido pela vassoura de quem varria ficava sem casar naquele ano. A brincadeira é antiga e carinhosa, mas encosta num ponto sensível: a expectativa da família sobre casamento. Muitas vezes, é o jeito que um parente encontra de arriscar uma pergunta que não teria coragem de fazer a sério. Rir junto é fácil; responder à pergunta escondida, com o mesmo bom humor, pede um pouco mais.

Depende de como você viu

Na cozinha, durante a faxina

Quem varre olha para o chão e para o cisco, não para os pés de quem está parado no caminho. O esbarrão é quase inevitável numa cozinha pequena. Sair da frente, nessa hora, é gentileza com quem está trabalhando.

Com alguém esparramado no sofá

Em casa com gente espalhada pela sala, a faxina vira um jogo de pedir licença. Levantar os pés por um instante é o tipo de gesto pequeno que facilita a vida de quem cuida da casa.

Em alguém que não pensa em casar

Para quem não quer casar, a frase da família soa diferente: é um lembrete de que existe um roteiro esperado. Responder com leveza, sem justificar a vida inteira, já resolve boa parte da conversa.

Por que acontece na natureza

Ao varrer, a vassoura avança em arcos curtos rente ao chão, e a atenção de quem varre vai para o cisco que está sendo empurrado. Em cômodos pequenos, como cozinhas e corredores, é fácil que as cerdas alcancem os pés de quem está parado no caminho.

O que dizem as crenças populares

Pernambuco (Brasil)

Em Pernambuco, Pereira da Costa contava como coisa nociva varrer os pés de um solteiro, porque isso o faria não casar.

Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 113. Ver a página

Douro (Portugal)

No Douro dizia-se que a pessoa em quem outra, ao varrer, batesse com a vassoura não se casaria naquele ano.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 224. Ver a página

Brasil (registro de 1864)

Um almanaque de 1864, citado por Leite de Vasconcellos, registrou no Brasil que o viúvo não devia consentir que lhe varressem os pés, por ser prognóstico de que nunca mais se casaria.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 224. Ver a página

Para refletir

Quando uma brincadeira de família toca num ponto sensível, você ri junto, responde ou muda de assunto?