Everyday Omens

Varrer a casa à noite

Varrer a casa à noite era malvisto em Portugal porque se varria a fortuna junto. Antes da luz elétrica, havia um risco bem concreto: no escuro, ia para o lixo o que tinha caído no chão.

O que pode significar

Com uma candeia ou um lampião, o chão de uma casa à noite era quase todo sombra. Quem varria nessas condições recolhia o cisco sem enxergar o que ia junto: uma moeda, um botão, o brinco que escapou durante o dia. A ideia de que varrer depois do pôr do sol leva a fortuna embora tinha, portanto, um lado bem literal. Ela também vale para outra faxina, a que se faz por dentro no fim de um dia longo. Cansaço e pouca luz são má companhia para decidir o que jogar fora, e um projeto descartado às onze da noite talvez parecesse outro de manhã. Em Penafiel, quem precisava varrer mesmo assim atirava sal no cisco antes de recolhê-lo.

Depende de como você viu

Depois do jantar, com a luz amarela da cozinha

Uma lâmpada no teto ilumina de cima e esconde migalhas e objetos miúdos. Uma lanterna apoiada rente ao chão faz o contrário: cada grão projeta uma sombra comprida e aparece. Quem perdeu algo pequeno acha mais fácil assim do que com a luz do teto.

Jogando o cisco pela porta da rua

Leite de Vasconcellos observou que varrer o cisco para a rua depois do sol posto era, para o povo, o mesmo que varrer a fortuna. Hoje, a varrida que vai direto para a calçada à noite ainda incomoda vizinhos. O que sai de casa precisa de destino, não só de uma porta aberta.

Alguém recolhendo o seu cisco

Há tarefas que a gente prefere terminar com as próprias mãos, do começo ao fim. Em Pernambuco, quem varria não deixava outra pessoa juntar o cisco, para que ela não levasse junto a felicidade da casa.

Por que acontece na natureza

À noite, a luz artificial costuma vir de cima e de um só ponto, o que esconde objetos miúdos no chão. Uma luz rasante, perto do piso, faz cada grão projetar sombra e o torna visível. Antes da eletricidade, com candeeiros e velas, o chão de uma casa ficava ainda mais escuro depois do pôr do sol.

O que dizem as crenças populares

Penafiel (Portugal)

Em Penafiel dizia-se que depois do sol posto não se devia varrer a casa, porque se varria a fortuna; se fosse preciso varrer, jogava-se no cisco um punhado de sal.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 12. Ver a página

Portugal

Teófilo Braga registrou em Portugal que não se devia varrer a casa à noite, porque assim se botava fora a fortuna.

Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 106. Ver a página

Pernambuco (Brasil)

Em Pernambuco, quem varria uma casa não devia consentir que outra pessoa juntasse o cisco, para que ela não levasse a sua felicidade.

Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 114. Ver a página

Para refletir

Que decisão tomada tarde da noite, no cansaço, você gostaria de ter deixado para a manhã seguinte?