Everyday Omens

Alho atrás da porta

Alho atrás da porta é um velho escudo doméstico contra mau-olhado e bruxaria. Em Portugal, segundo Leite de Vasconcellos, os lavradores iam além: mordiam um dente de alho toda manhã antes de sair para o serviço.

O que pode significar

A porta é o ponto em que a casa termina e o mundo começa, e não por acaso tanta crença se concentra ali. Os lavradores portugueses do século XIX, antes de sair para a lida, mordiam um dente de alho contra as bruxas e o Diabo; na Bulgária, de acordo com a enciclopédia de Daniels, um pé de alho pendurado sobre a porta frustrava os invejosos. Todo mundo tem algum rito de soleira, mesmo sem alho. Conferir três vezes se o fogão está desligado, dar um beijo em quem fica, tocar a medalha no pescoço, pôr a mesma música no fone ao trancar a porta. São pequenos gestos que preparam para o que está lá fora.

Depende de como você viu

Uma cabeça de alho pendurada no batente

Pendurado num lugar seco e arejado, o alho dura meses sem brotar e quase não cheira enquanto está inteiro. O perfume forte só aparece quando um dente é cortado ou amassado.

Brotando esquecido na cozinha

Um dente de alho esquecido que solta um broto verde pode ir para um vaso: vira planta. Em Portugal, Teófilo Braga anotou que cebolas brotando dentro de casa eram sinal de que a fortuna crescia.

No jejum, antes do café

Teófilo Braga registrou que morder o alho em jejum livrava do mau-olhado. É um rito de começo de dia parecido com o de quem toma um gole de água antes de qualquer outra coisa: um marco pequeno entre a noite e a rua.

Por que acontece na natureza

O alho é um bulbo formado por vários dentes, e o cheiro forte vem de compostos de enxofre, como a alicina, que surgem quando ele é cortado ou amassado. Inteiro e guardado em lugar seco e ventilado, conserva-se por meses, e pendurá-lo em tranças ou em cabeças sempre foi uma forma prática de armazená-lo.

O que dizem as crenças populares

Portugal

Em Portugal, segundo Leite de Vasconcellos, o alho era excelente proteção contra as bruxas e o mau-olhado, e os lavradores, de manhã, antes de sair para o serviço, mordiam um dente de alho por causa delas e do Diabo.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), pp. 121-122. Ver a página

Rio Tinto (Portugal)

Em Rio Tinto, quando se levavam os porcos para vender na feira, era costume untar-lhes o corpo com um, três ou cinco dentes de alho, sempre em número ímpar.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 122. Ver a página

Portugal

Teófilo Braga registrou em Portugal que morder o alho em jejum livrava do mau-olhado.

Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 109. Ver a página

Bulgária

Na Bulgária, segundo um registro de 1903, um pé de alho pendurado sobre a porta frustrava os maus desejos dos invejosos.

Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. II (1903), vol. II, p. 801. Ver a página

Para refletir

Que gesto você repete na porta antes de sair, e ele dá coragem ou só adia a saída?