Orelha queimando
Orelha queimando, em Pernambuco e no Douro, era sinal de que comentavam sobre você: bem, se fosse a direita; mal, se fosse a esquerda. A crença põe a atenção em quem fala, e não só em quem sente o calor.
Esta página descreve apenas crenças populares. Se a sensação se repetir ou preocupar, procure um médico.
O que pode significar
A orelha esquenta, fica vermelha, e a pergunta vem pronta: quem está comentando sobre mim? Em Pernambuco, há mais de um século, a direita indicava elogio e a esquerda, falatório. Pereira da Costa explicava que antigamente se acreditava que as palavras apressavam as pulsações do sangue de quem era assunto. A ideia é bonita porque dá às palavras um alcance físico: o que se diz numa sala chegaria ao corpo de alguém em outra. Vista assim, a crença faz uma pergunta melhor do que a original: não só quem fala de você, mas como você fala dos ausentes.
Depende de como você viu
Orelha direita
Na tradição do Douro e de Pernambuco, a direita quente queria dizer que alguém elogiava você naquele momento. Elogio que a gente não ouve também conta, mesmo que só chegue em forma de calor.
Orelha esquerda
Nos arredores do Porto, quem sentia a esquerda quente, e portanto era alvo de falatório, dava um nó bem apertado no lenço. São gestos de quem quer se defender de longe, de uma crítica que nem chegou a ouvir.
As duas ao mesmo tempo
Orelhas inteiras vermelhas aparecem com calor, vergonha ou correria, junto com o rosto corado. Nesses dias, o falatório alheio é o menor dos motivos.
Por que acontece na natureza
A pele das orelhas, do rosto e do pescoço tem muitos vasos pequenos perto da superfície. Quando eles se dilatam, mais sangue passa por ali e a região fica vermelha e quente, o que acontece com calor, exercício, vergonha ou emoção forte, no fenômeno conhecido como rubor.
O que dizem as crenças populares
Pernambuco (Brasil)
Em Pernambuco dizia-se que, quando a orelha direita ardia, estavam falando bem da pessoa na ausência dela, e mal, se fosse a esquerda, porque outrora se acreditava que as palavras apressavam as pulsações do sangue de quem era assunto.
Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 116. Ver a página
Douro (Portugal)
No Douro, quando uma das orelhas ficava vermelha, estavam falando de nós: bem, se fosse a direita; mal, se fosse a esquerda.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 253. Ver a página
Arredores do Porto (Portugal)
Nos arredores do Porto, quando a orelha esquerda ficava quente, o que queria dizer que falavam mal da pessoa, dava-se um nó muito apertado no lenço de assoar.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 258. Ver a página
Portugal
Teófilo Braga registrou em Portugal que, quando a orelha esquerda ficava vermelha, falavam mal da pessoa, e então se jogava um punhado de sal no fogo, evitando ouvir os estalidos.
Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 94. Ver a página
Para refletir
Se os seus comentários sobre quem não está presente esquentassem a orelha dessa pessoa, ela sentiria um calor bom ou ruim?