Vestir roupa de quem morreu
Vestir roupa de quem morreu divide famílias: uns sentem conforto, outros sentem medo. As roupas guardam a forma e, por um tempo, o cheiro de quem as usou, e essa é a parte mais delicada da decisão.
O que pode significar
Uma roupa usada por anos aprende o corpo do dono. O cotovelo do casaco fica arredondado, o joelho da calça marca, o colarinho cede no lado em que a cabeça pendia. Vestir essa peça é, por um instante, ocupar a forma de alguém que não está mais ali. Por isso a decisão pesa tanto. Para uns, é abraço; para outros, é fardo. O cheiro costuma ir embora primeiro, e muitas famílias sentem essa perda como uma segunda despedida. Não há resposta certa sobre quando doar, guardar ou vestir. Há o ritmo de cada pessoa da casa, e a roupa pode esperar dobrada até que alguém esteja pronto para decidir sem susto.
Depende de como você viu
O casaco do pai no primeiro inverno
Muita gente veste uma peça de quem morreu nos primeiros meses, quase sem pensar, pelo conforto de sentir aquela forma por perto. Com o tempo, a peça vira sua, com outras marcas por cima das antigas.
Dividir as roupas entre a família
Repartir as roupas é mais difícil do que parece, porque cada peça tem uma memória diferente para cada pessoa. Fazer isso em conjunto, sem pressa, evita mágoas e deixa espaço para histórias.
Doar para quem precisa
Para muitas famílias, doar é a forma de manter a pessoa útil no mundo, aquecendo alguém num inverno qualquer. Separar uma ou duas peças para guardar antes de doar o resto ajuda a não sentir que tudo foi embora de uma vez.
Por que acontece na natureza
Tecidos usados por muito tempo se deformam nos pontos de maior movimento, como cotovelos, joelhos e golas, e guardam cheiros de pele e perfume que vão se dissipando com o tempo e com as lavagens. Por isso a mesma peça muda de sentido semanas ou meses depois da perda.
O que dizem as crenças populares
Coimbra (Portugal)
Teófilo Braga registra o velho ditado “quem espera por sapatos de defunto toda a vida anda descalço” e cita o compromisso de uma confraria de Coimbra que destinava os sapatos do irmão falecido ao campeiro, quem anunciava o enterro tocando a campa pelas ruas.
Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), pp. 343-344. Ver a página
Pernambuco (Brasil)
O mesmo provérbio corria em Pernambuco, onde Pereira da Costa o anotou: quem espera por sapatos de defunto anda sempre descalço.
Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 99. Ver a página
Irlanda
Os irlandeses, segundo Daniels e Stevans, acreditavam que dava azar ajustar as melhores roupas de um morto para usá-las, porque o fantasma as vestia à noite.
Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. I (1903), vol. I, p. 153 (file v 1). Ver a página
Para refletir
Que objeto de alguém que você perdeu ainda espera, dobrado, pela sua decisão?