Everyday Omens

Comer na panela

Comer na panela faz chover no casamento, diz uma superstição pernambucana anotada no começo do século passado. A ameaça, ainda repetida em muitas cozinhas, esconde um recado sobre a mesa.

O que pode significar

Comer direto da panela é uma das pequenas transgressões mais antigas da cozinha, e a ameaça contra ela mira longe: vai chover no seu casamento. Pereira da Costa já registrava a ideia entre os pernambucanos no início do século passado. A ameaça é curiosa porque castiga um hábito miúdo com um transtorno no grande dia, e é provável que por isso tenha funcionado com tantas gerações. Por trás dela há um recado sobre a mesa. O que sai da panela se divide, se serve, espera os outros. Quem come na panela quase sempre come de pé, sozinho, apressado. A chuva prometida é um aviso de que refeição também é encontro, e de que sentar para comer com alguém faz parte do que alimenta.

Depende de como você viu

Provando o ponto com a colher

Provar durante o preparo faz parte do ofício: é assim que se acerta o sal e o ponto. A crença mira outra coisa, fazer a refeição inteira direto da panela, sem prato.

Sozinho, tarde da noite

Depois de um dia longo, comer de pé na frente do fogão é tentador e poupa louça. É também o jeito mais rápido de pular, sem perceber, o momento de sentar e descansar.

Panela de barro na mesa

Em muitas casas, a moqueca e o feijão vão à mesa na própria panela de barro, que segura o calor por mais tempo. Ali a panela fica no meio de todos: cada um se serve com a concha, e ela volta vazia para a cozinha.

Por que acontece na natureza

Comer direto da panela é prático e poupa louça, mas tira a refeição da mesa. Regras como servir no prato e esperar os outros existem em muitas culturas e ajudam a dividir o que foi preparado e a transformar a refeição num momento compartilhado.

O que dizem as crenças populares

Pernambuco (Brasil)

Em Pernambuco, segundo Pereira da Costa, quando chovia muito no dia do casamento, a explicação era que a noiva tinha comido na panela.

Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 120. Ver a página

Sinfães (Portugal)

Em Sinfães, conforme Leite de Vasconcellos, ao tirar uma panela do fogo era preciso mexer a cinza onde ela estava apoiada, senão o Diabo ia dançar ali.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 36. Ver a página

Pernambuco (Brasil)

Em versos populares de Pernambuco, o gato ladrão pedia para as suas andanças “uma casa de porta aberta, uma mulher descuidada e uma panela descoberta”.

Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 47. Ver a página

Para refletir

Em que mesa recente você sentou sem pressa, ao lado de alguém?