Dar lenço de presente
Dar lenço de presente tinha fama de agouro entre namorados portugueses: o lenço serviria para enxugar as lágrimas da separação. A saída era quem recebia pagar uma moeda, como se o tivesse comprado.
O que pode significar
Um lenço é um presente íntimo, feito para tocar o rosto. Talvez por isso tenha ganhado fama ambígua: serve para o suor do dia, mas também para as lágrimas, e houve quem temesse que o presente atraísse o motivo do choro. Em Portugal, segundo um almanaque de 1858, namorados evitavam trocá-lo; se trocassem, quem recebia pagava uma moeda qualquer, para fingir que o tinha comprado. No Tirol, ao contrário, o lenço da noiva era dos presentes mais queridos e a acompanhava a vida inteira. Num presente tão pessoal, conta saber que recado vai junto e se quem recebe conhece o mesmo código.
Depende de como você viu
Para alguém mais velho
Para quem ainda carrega lenço no bolso, um jogo de lenços novos e macios é um presente prático e carinhoso. Quem tem o hábito guarda o lenço de todo dia e o de sair, e reconhece um bom algodão de longe.
Lenço de namorados com versos
Em Portugal, quando Leite de Vasconcellos escreveu, em 1882, vendiam-se lenços pintados com versos, nomes e corações para os namorados trocarem. Ele anotou quadras como “Abre este lenço e verás / quatro ramos floridos”.
Lenço de seda para o pescoço
Lenços de seda viraram acessório, mais perto de um colar que de um pano de bolso. Nesse uso, a velha ligação com as lágrimas pesa menos, e o presente fala mais de estilo.
Trocado por uma moeda
Quem conhece o costume português e quer presentear sem agouro pode pedir uma moeda simbólica em troca. Vira brincadeira, e o lenço passa a ser “vendido”, não dado.
Por que acontece na natureza
O lenço foi, por muito tempo, um objeto de uso pessoal e diário, ligado ao rosto, ao suor e às lágrimas. Presentes muito pessoais carregam mais significado, e por isso atraem regras sobre quem pode dar a quem e em que ocasião.
O que dizem as crenças populares
Portugal
Leite de Vasconcellos cita um almanaque de 1858 segundo o qual era mau agouro dois namorados se presentearem com um lenço, porque ele enxugaria as lágrimas da separação; quem o dava devia receber em troca uma moeda qualquer, para fingir que tinha sido comprado.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 216. Ver a página
Suécia
Na Suécia, segundo Daniels e Stevans, dava azar o namorado presentear a namorada com um lenço de seda: com ele, ela enxugaria o afeto que sentia.
Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. I (1903), vol. I, p. 135 (file v 1). Ver a página
Tirol
No Tirol, conforme a mesma obra, a noiva recebia um lenço pequeno; se chorasse no dia seguinte ao casamento, enxugava a lágrima com ele para afastar uma vida de tristezas, e esse lenço era enterrado com ela.
Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. I (1903), vol. I, p. 117 (file v 1). Ver a página
Para refletir
Que presente seu ganhou, para quem recebeu, um sentido que você não esperava?