Tesoura aberta
Uma tesoura aberta pode ser só descuido, mas já foi proteção: no Minho e em Sinfães, no século XIX, ela era posta aberta, em forma de cruz, junto ao berço ou sob o travesseiro, contra as bruxas.
O que pode significar
Poucas ferramentas têm duas caras tão claras. Fechada, a tesoura descansa inofensiva na gaveta; aberta, deixa as lâminas expostas, e qualquer mão distraída se fere. Mesmo assim, no norte de Portugal, foi justamente aberta que ela virou guardiã: o aço e o formato de cruz se somavam para afastar as bruxas do berço. O que fere também protege, desde que esteja no lugar certo. Limites funcionam de modo parecido. Um não bem colocado parece duro para quem está de fora, mas existe para guardar alguma coisa frágil. O cuidado é não deixar a lâmina aberta onde não há nada para proteger.
Depende de como você viu
Debaixo do travesseiro
Em Vimieiro e Sinfães, como registrou Leite de Vasconcellos, a tesoura de aço aberta em cruz ia para baixo do travesseiro dos recém-nascidos. Hoje, o mais prudente é o oposto: nada cortante perto de quem dorme, sobretudo de crianças.
Esquecida aberta em cima da mesa
É a versão cotidiana e a mais comum. Uma tesoura aberta na mesa ou na gaveta é perigo real para mãos que procuram outra coisa. Fechar depois de usar é um hábito pequeno que evita cortes bobos.
Dada de presente
Na lista portuguesa de presentes proibidos entre namorados, anotada por Teófilo Braga, a tesoura aparecia ao lado do lenço e dos rosários. Um objeto feito para separar parecia mau começo para quem queria ficar junto.
Por que acontece na natureza
A tesoura é feita de duas lâminas presas por um eixo, e o corte acontece quando as bordas se cruzam. Aberta, ela deixa as duas pontas e os dois fios livres, o que aumenta o risco de acidente, sobretudo com crianças por perto. Fechada e guardada numa gaveta, com a ponta virada para o fundo, fica bem mais segura.
O que dizem as crenças populares
Vimieiro e Sinfães (Portugal)
Nas notas de Leite de Vasconcellos sobre Vimieiro e Sinfães, punha-se sob o travesseiro dos recém-nascidos uma tesoura de aço aberta em cruz, para que as bruxas não lhes fizessem mal; em Sinfães, ter uma tesoura aberta diante de si impedia que elas ouvissem as conversas a seu respeito.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 100. Ver a página
Minho (Portugal)
No Minho, um almanaque de 1856 citado na obra de Leite de Vasconcellos mandava pôr uma tesoura aberta, arruda e alecrim à cabeceira do berço, para que as bruxas não chegassem às crianças.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 204. Ver a página
Portugal
Entre namorados portugueses, conforme o livro de Teófilo Braga, os presentes nunca deviam ser lenço, santos, rosários ou tesoura.
Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 99. Ver a página
Para refletir
Que limite seu parece duro para os outros, mas existe para proteger algo frágil?