Everyday Omens

Facas cruzadas

Facas cruzadas na mesa foram tidas como mau presságio na velha Inglaterra, onde até a faca deixada em X sobre o garfo prometia “cruzes e desgraças”. Pela etiqueta, lâminas paralelas no prato dizem outra coisa: acabou.

O que pode significar

Duas facas em X lembram espadas cruzadas, e a expressão “cruzar armas” já diz tudo. Talvez por isso a imagem tenha virado agouro: na Inglaterra, o antiquário Grose anotou que garfo e faca deixados em cruz traziam cruzes e desgraças. Curiosamente, a etiqueta de mesa resolve a cena pelo outro lado. Para avisar que terminou, quem come deixa os talheres paralelos no prato. Entre duas pessoas de palavra afiada acontece algo parecido: enquanto as lâminas se cruzam, alguém sai cortado, e só quando elas descansam lado a lado a discussão acaba de verdade. Nem toda divergência precisa terminar com um vencedor. Algumas só precisam de um gesto claro de que a refeição chegou ao fim.

Depende de como você viu

No escorredor de louça

Facas jogadas de qualquer jeito no escorredor acabam cruzadas, com as lâminas para cima, e é ali que muita gente se corta ao pegar um copo. Guardar as facas afiadas num suporte próprio desfaz o X e o risco ao mesmo tempo.

Sobre o prato, no fim do almoço

Nos guias de etiqueta, talheres paralelos no prato avisam ao garçom que a refeição terminou. A posição em X não tem leitura única: há quem a entenda como insatisfação, há quem a entenda como pedido do próximo prato. Gesto sem código combinado gera mal-entendido, na mesa e fora dela.

Na tábua de frios

Uma faca de queijo atravessada sobre outra, na tábua da mesa posta, não quer dizer nada além de pressa. Separar cada lâmina depois do uso evita que alguém pegue uma delas pela parte errada.

Por que acontece na natureza

Facas soltas tendem a se cruzar quando são jogadas juntas numa pia, num escorredor ou numa gaveta, e as lâminas ficam expostas em ângulos diferentes. Por isso as dicas de segurança na cozinha recomendam guardar as facas afiadas separadas, num porta-facas. O cuidado protege as mãos e também o fio das lâminas.

O que dizem as crenças populares

Inglaterra

Na Inglaterra, Grose, citado por Brand, escreveu que dava azar deixar a faca e o garfo cruzados, porque cruzes e desgraças viriam em seguida.

Fonte: John Brand; Henry Ellis, Observations on the Popular Antiquities of Great Britain, vol. III (1849), vol. III, p. 250. Ver a página

Cabo Verde

Em Cabo Verde, segundo Adolfo Coelho, citado por Leite de Vasconcellos, uma faca ou um garfo debaixo do travesseiro afastava o Pesadelo, espírito que perturbava o sono.

Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 290. Ver a página

Para refletir

Em que discussão as lâminas continuam cruzadas, mesmo quando já não há nada a ganhar com isso?