Mosca varejeira em casa
Uma mosca varejeira em casa veio atrás do cheiro de algo estragando, como lixo, carne ou um bicho morto num canto. No Porto, a varejeira dentro de casa prenunciava visita, como se lê em Leite de Vasconcellos.
O que pode significar
Nas casas pernambucanas de antigamente, as moscas não eram só espantadas: eram intimadas. No folclore que Pereira da Costa recolheu, recitava-se uma fórmula que lhes dava prazo, da sexta para o sábado, para se mudarem da casa. A cena tem graça e uma ideia aproveitável. Há incômodos que a gente combate o dia inteiro, de pano na mão, sem resolver nada. Dar um prazo muda a relação com eles: até sábado eu limpo a lixeira e encontro a origem do cheiro. O problema continua lá, mas deixa de ocupar cada minuto. A varejeira que zune contra o vidro também está procurando a saída, e uma janela aberta resolve boa parte do resto.
Depende de como você viu
Zunindo contra o vidro da janela
Moscas são atraídas pela claridade e batem no vidro tentando sair. Com a lâmpada apagada e a janela aberta, a mosca em geral encontra o caminho sozinha, sem perseguição.
De cor metálica, verde ou azulada
O brilho metálico é típico das varejeiras. Elas procuram matéria orgânica em decomposição para se alimentar e pôr ovos, e por isso aparecem perto de lixo, de carne fora da geladeira ou de restos de animais.
Várias aparecendo ao mesmo tempo
Quando surgem muitas em pouco tempo, provavelmente há uma fonte perto: um rato morto no forro, uma lixeira esquecida, um ralo sujo. Encontrar e eliminar a origem resolve o problema de verdade.
Por que acontece na natureza
As varejeiras pertencem a famílias de moscas que se alimentam e põem ovos em matéria orgânica em decomposição. Elas detectam o cheiro de longe e entram atrás dele. O zumbido grave vem das asas batendo muitas vezes por segundo, e o brilho metálico vem da estrutura da cutícula.
O que dizem as crenças populares
Porto e Estremadura (Portugal)
Dizia-se no Porto que a mosca varejeira entrando em casa trazia visita, e na Estremadura acrescentava-se que prometia presente próximo.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 136. Ver a página
Pernambuco (Brasil)
Os pernambucanos, relata Pereira da Costa, intimavam as moscas a deixar a casa em dia certo, com a fórmula: “Moscas malvadas! Da sexta pra sábado estejam mudadas.”
Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 54. Ver a página
Tapuias (América do Sul)
Numa coletânea americana de 1903, os indígenas tapuias da América do Sul aparecem dizendo que o Diabo assumia a forma de uma mosca.
Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. II (1903), vol. II, p. 629. Ver a página
Para refletir
Que incômodo você poderia tratar com um prazo, em vez de brigar com ele o dia inteiro?