Tropeçar na soleira
Tropeçar na soleira fazia o supersticioso inglês do século XVII temer uma desgraça, conta o bispo Hall. A maioria desses tropeços, porém, vem de um degrau baixo demais para ser notado.
O que pode significar
A soleira marca o ponto exato onde a casa acaba e a rua começa, e um tropeço ali parece pesar mais do que um tropeço no meio da calçada. O corpo erra um degrau de dois dedos de altura; a cabeça logo transforma o deslize em presságio para o dia inteiro. Na Roma antiga, Cícero ironizava que, se todo presságio fosse levado a sério, seria preciso vigiar até os tropeços. Séculos depois, na Revolução Francesa, o magistrado Malesherbes tropeçou a caminho do tribunal que o julgaria e brincou que um romano teria dado meia-volta. A ironia não mudou o destino dele, mas ensina um jeito de segurar o medo sem deixar que ele mande. Um tropeço logo cedo pode ser só isso, ou a deixa para notar que você saiu com pressa demais.
Depende de como você viu
Logo de manhã, ao sair de casa
No catálogo de superstições inglesas de Melton, de 1620, tropeçar de manhã, assim que se punha o pé para fora, dava azar. Quando o tropeço se repete sempre na correria da saída, a causa provavelmente está no relógio, e não na porta.
Na porta da casa de alguém
Entrar tropeçando na casa dos outros deixa qualquer visita sem graça. A soleira alheia é desconhecida: altura, piso, tapete. Olhar para baixo no primeiro passo, por mais deselegante que pareça, evita a cena.
Com idosos ou crianças em casa
Desníveis pequenos na entrada pegam desprevenidos sobretudo os pés cansados e os olhos que enxergam pouco no escuro. Uma faixa de cor contrastante no degrau ou uma luz acesa na porta ajudam a ver o que antes passava despercebido.
Voltando para chutar a pedra
Um almanaque inglês de 1695, o de Poor Robin, zombava de quem, depois de tropeçar numa pedra, voltava para chutá-la. A cena continua conhecida: a raiva descontada no objeto inocente. Quem ri do próprio tropeço se livra mais rápido da raiva.
Por que acontece na natureza
Tropeçamos quando o pé levanta menos do que o obstáculo exige, e soleiras são armadilhas clássicas: o desnível é pequeno, muda de altura de uma porta para outra e fica numa área que o olhar deixa de vigiar quando já está na rua. Pressa, sacolas nas mãos e pouca luz aumentam as chances.
O que dizem as crenças populares
Inglaterra (século XVII)
O bispo Hall, ao descrever o homem supersticioso, escreveu que, se ele tropeçava na soleira, temia uma desgraça; o trecho é citado por Brand.
Fonte: John Brand; Henry Ellis, Observations on the Popular Antiquities of Great Britain, vol. III (1849), vol. III, p. 249. Ver a página
Inglaterra
No Astrologaster de Melton, catálogo inglês de superstições citado por Brand, era sinal de má sorte tropeçar de manhã, logo ao sair de casa, e também que o cavalo tropeçasse na estrada.
Fonte: John Brand; Henry Ellis, Observations on the Popular Antiquities of Great Britain, vol. III (1849), vol. III, p. 249. Ver a página
Coreia
Na Coreia, segundo Daniels e Stevans, topar com o pé ou tropeçar era mau presságio.
Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. I (1903), vol. I, p. 500 (file v 1). Ver a página
Madagascar
Em Madagascar, conforme a mesma obra, quem tropeçava na soleira da porta ficava sob suspeita de praticar feitiçaria.
Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. I (1903), vol. I, p. 501 (file v 1). Ver a página
Para refletir
Quando algo dá errado logo no começo do dia, quanto do resto você deixa esse tropeço decidir?