Dar sapato de presente
Dar sapato de presente ao namorado, ao marido ou a um amigo assusta quem ouviu dizer que o calçado leva a pessoa embora. Antigas tradições da Escócia e da Índia viam no sapato dado outra coisa: um caminho garantido na outra vida.
O que pode significar
Por trás do medo de que o sapato leve o namorado embora existe um receio mais antigo: o de dar ao outro tudo de que ele precisa para ir longe, inclusive sem você. Um par de tênis para a corrida que ele quer fazer, uma bota para a viagem que ela planeja sozinha, um sapato para a entrevista na outra cidade. São presentes que acreditam no caminho do outro. Relações que duram têm espaço para isso: cada um tem projetos próprios, e o par fica mais forte quando os dois voltam para casa por vontade. O receio diz pouco sobre o calçado e bastante sobre quanto a liberdade de quem a gente ama ainda assusta.
Depende de como você viu
Para o namorado ou o marido
É a situação em que o receio mais aparece. Se ele acredita, combinar antes evita constrangimento; se não acredita, o presente pode virar piada do casal. Um vale-presente na loja preferida dele resolve as duas coisas e ainda acerta a numeração.
Tênis para um plano novo
Um tênis de corrida para quem quer treinar, ou uma bota para quem vai fazer uma trilha, é um presente que diz “vá em frente”. Poucos presentes mostram tão bem que você leva a sério o plano do outro.
Errou o número
Sapato é dos presentes mais difíceis de acertar: a numeração muda de marca para marca, e o mesmo pé fica maior no fim do dia. Guardar a nota fiscal e combinar a troca tira o peso dos dois lados.
Por que acontece na natureza
Os pés tendem a ficar um pouco mais inchados no fim do dia, depois de horas em pé ou sentado, e por isso o mesmo sapato aperta à tarde e sobra de manhã. Além disso, cada marca tem a sua forma e a sua numeração, o que torna o sapato um presente arriscado de qualquer jeito, com crença ou sem ela.
O que dizem as crenças populares
Escócia
Na Escócia, segundo Walter Scott, citado por Teófilo Braga, era bom dar ao menos uma vez na vida um par de sapatos a um pobre: depois da morte, um velho devolveria os mesmos sapatos para a travessia de um campo de espinhos.
Fonte: Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II (1885), p. 344. Ver a página
Índia
Entre os hindus, conforme Daniels e Stevans, quem desse água e sapatos a um brâmane encontraria água para se refrescar e sapatos para calçar na viagem para o outro mundo.
Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. II (1903), vol. II, p. 1140. Ver a página
Grécia
Na Grécia, de acordo com a mesma enciclopédia, a mãe da noiva não deixava o genro ir para a cama na noite do casamento antes que ele lhe desse um par de sapatos novos.
Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. I (1903), vol. I, p. 128 (file v 1). Ver a página
Para refletir
Que plano de alguém que você ama ainda assusta você, mesmo sendo bom para essa pessoa?