Emprestar sal
Emprestar sal ao vizinho é um dos pedidos mais antigos entre portas vizinhas, e o receio de que faça mal ronda o gesto. Velhas tradições de Pernambuco, do Minho e da Ilha de Man também cercavam de cuidados o que se emprestava ou se dava.
O que pode significar
Ninguém vai à casa do vizinho pedir caviar emprestado. Pede-se sal, açúcar, um ovo, coisas baratas que quase todo mundo tem. Por isso o pedido diz pouco sobre a falta e muito sobre a confiança: só se bate na porta de quem se espera ver amanhã no corredor. Um pouco de sal emprestado raramente volta na mesma medida. Volta como bolo na semana seguinte, um pacote recebido na portaria, um olho na casa durante as férias. É assim que se forma uma rede de vizinhança, de dívidas pequenas que ninguém anota. Se alguém pediu sal na sua porta, estava, sem perceber, abrindo uma conta que só funciona se ninguém fizer questão de fechá-la.
Depende de como você viu
O vizinho novo pedindo sal
Para quem acabou de se mudar, pedir sal é também um jeito de se apresentar. Atender com um sorriso e, se der, dizer o próprio nome pode render anos de boa convivência no corredor ou na rua.
Devolver ou não devolver
Há famílias que fazem questão de devolver o sal na mesma medida e outras que acham que ele nunca deve voltar. Na prática, quase ninguém espera de volta uma colher de sal. O que costuma voltar é outro favor.
Quando a criança é quem bate na porta
Muitas famílias mandam a criança da casa bater na porta ao lado com uma xícara na mão. Para ela, é um pequeno teste de coragem; para quem atende, uma chance de conhecer melhor a família do lado.
Por que acontece na natureza
O sal não estraga, é barato e está em todas as cozinhas, por isso é o que mais se toma emprestado quando acaba no meio do preparo. Pequenos empréstimos entre vizinhos funcionam como trocas que criam laços: quem recebe tende a retribuir com outro favor, e não com a mesma coisa.
O que dizem as crenças populares
Pernambuco (Brasil)
Em Pernambuco, Pereira da Costa listou como nocivo emprestar um objeto qualquer antes de o próprio dono se servir dele.
Fonte: F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. LXX, parte II (1908), p. 113. Ver a página
Minho (Portugal)
No Minho, segundo Leite de Vasconcellos, quem emprestava brasas do fogo a um vizinho punha junto um pouco de esterco de boi, para que o fogo não se apagasse, o que seria desastre na casa de quem emprestou.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 37. Ver a página
Ilha de Man
Na Ilha de Man, conforme Daniels e Stevans, um mendigo não aceitava esmola nem roupa se não viesse junto um pouco de sal.
Fonte: Cora Linn Daniels; C. M. Stevans, Encyclopaedia of Superstitions, Folklore, and the Occult Sciences of the World, vol. I (1903), vol. I, p. 489 (file v 1). Ver a página
Para refletir
Em que porta da sua rua você bateria hoje para pedir um pouco de sal?