Sentar na quina da mesa
Sentar na quina da mesa, diz um velho aviso do Porto registrado em 1882, impede o casamento. A mesma regra reaparece numa família peruana, e numa família coreana a quina é evitada por outro motivo.
O que pode significar
A quina é o lugar que sobra. Quando a família cresce e a mesa não, alguém acaba sentado na ponta do ângulo, com o pé da mesa entre os joelhos e o cotovelo do vizinho no prato. No Porto, avisava-se que quem ficava ali não casava; uma família peruana repetiu o mesmo aviso às filhas, já nos Estados Unidos; numa família coreana, a quina seria um lugar pontudo, que encurta a vida. Por trás da diferença de motivo, há uma mesma intuição: a ponta do ângulo é um lugar provisório, improvisado para caber mais um. Ficar na quina é aceitar o joelho apertado em troca de um lugar na conversa, uma troca que pouca gente recusa.
Depende de como você viu
Na festa de família, com a mesa cheia
É o lugar dado a quem chegou por último ou a quem não reclama. Revezar a quina ou juntar outra mesa evita que sempre a mesma pessoa coma espremida.
Uma moça solteira na ponta
Era sobretudo às meninas que o aviso se dirigia, tanto na família peruana quanto no registro português. Hoje, quando alguém o repete à mesa, ele soa como piada, e nem sempre é recebido assim.
Criança perto da quina
Para crianças pequenas, o canto da mesa tem um risco concreto: a altura da quina coincide com a da cabeça delas. Os protetores de quina vendidos em lojas de bebê existem por isso.
Num restaurante, com mesas emendadas
Mesas de quatro lugares juntadas para um grupo grande criam quinas no meio. Quem se senta na emenda passa o jantar desviando dos pés de duas mesas.
Por que acontece na natureza
A quina é a posição menos confortável de qualquer mesa retangular: falta espaço para as pernas, o prato fica torto e os cotovelos esbarram nos vizinhos. Costumes que mandam evitar esse lugar acabam protegendo também o conforto de quem come.
O que dizem as crenças populares
Porto (Portugal)
Leite de Vasconcellos registrou no Porto que não se devia ficar na quina da mesa, porque quem se sentava ali não casava.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 229. Ver a página
Peru (família nos EUA)
Numa família peruana que emigrou para os Estados Unidos, as meninas ouviam que não deviam sentar no canto de uma mesa quadrada, porque assim não se casariam.
Fonte: Brianna (USC Digital Folklore Archive), Sitting at the Corner of the Table (2021), folklore.usc.edu. Ver a página
Coreia (família nos EUA)
Filho de imigrantes coreanos, um rapaz ouvia dos pais, nos jantares em grupo, que não se senta na quina da mesa: dá azar e encurta a vida, por ser um lugar pontudo.
Fonte: Allison Luo (USC Digital Folklore Archive), Don't sit at the corner of a table (2022), folklore.usc.edu. Ver a página
Para refletir
Que desconforto você aceita de boa vontade só para não ficar de fora de um encontro?