Vento assobiando
Vento assobiando nas frestas da janela é ar passando depressa por aberturas estreitas, como num apito. Em várias terras do norte de Portugal, quando ventava muito, dizia-se que tinha morrido algum escrivão.
O que pode significar
De dia, ninguém sabe que a janela do quarto tem uma fresta. Basta uma noite de ventania para descobrir: o ar encontra a abertura e a transforma em apito, ora agudo, ora grave, conforme a força da rajada. A casa vira instrumento, e cada fresta, uma nota. Entre minhotos e beirões, a ventania forte ganhava explicações inesperadas, como a morte de algum escrivão, e na Beira Alta havia quem jurasse que as galinhas enxergavam o vento. O assobio noturno põe a imaginação para trabalhar e, sem cerimônia, mostra onde a casa não fecha bem. Há coisas assim na vida: só fazem barulho nas noites de tempestade, e o barulho, por incômodo que seja, ajuda a encontrar a fresta.
Depende de como você viu
Nas frestas da janela, de madrugada
O assobio sai de vãos entre a folha e o batente, de borrachas ressecadas e de venezianas mal fechadas. Num dia de vento, um fio de fumaça de incenso passado devagar rente ao caixilho denuncia a fresta: onde o ar entra, a fumaça é empurrada para dentro do cômodo; onde ele sai, é puxada na direção da fresta.
Nos fios e nas antenas
Fios esticados, cercas e antenas também cantam quando o vento sopra forte e constante. O som muda de altura com a velocidade do ar: quanto mais forte a rajada, mais agudo o assobio.
Numa casa no alto de um morro
Onde nada segura o vento, ele chega inteiro e encontra cada telha solta e cada fresta. Quem mora nesses lugares acaba conhecendo a casa pelo som: sabe qual janela apita primeiro e de que lado vem a rajada mais forte.
Por que acontece na natureza
O assobio nasce quando o vento passa depressa por uma abertura estreita ou contorna uma borda, como a de uma fresta, de um fio ou de uma telha. O ar forma pequenos redemoinhos que se soltam em ritmo regular e fazem vibrar o ar em volta, produzindo um som que fica mais agudo conforme a velocidade aumenta.
O que dizem as crenças populares
Norte de Portugal
Quando fazia muito vento, contava Leite de Vasconcellos, ouvia-se em Mondim-da-Beira, no Vimieiro, em Melres e no Minho que tinha morrido algum escrivão.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 47. Ver a página
Beira Alta (Portugal)
Na Beira Alta, conforme o mesmo autor, o povo afirmava que as galinhas veem o vento.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 48. Ver a página
Melres (Portugal)
Em Melres, no dia da Senhora das Candeias, 2 de fevereiro, procurava-se saber de onde vinha o vento à meia-noite: de onde ele soprasse, sopraria quase o ano todo.
Fonte: J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882), p. 48. Ver a página
Para refletir
Que fresta da sua rotina só aparece nos dias de ventania?